Pode, e na maioria dos casos deve: glaucoma e exercício físico combinam. Os cuidados se concentram em poucas situações, como ficar muito tempo de cabeça para baixo, prender a respiração por muito tempo e usar óculos de natação apertados.

No consultório, eu sempre digo uma coisa:
Tudo que faz bem para o corpo faz bem para os olhos.
Se você vai fazer exercício, se vai para a academia, isso vai lhe fazer bem. A orientação muda um pouco conforme o glaucoma seja leve, moderado ou avançado, e é por isso que vale conversar com o seu oftalmologista sobre o seu caso.
Exercício faz bem para quem tem glaucoma?
Sim, e há dados sobre isso. Na Johns Hopkins, nos Estados Unidos, 141 pacientes com glaucoma usaram um medidor de atividade por uma semana. Quem andava mais e passava menos tempo parado perdia campo visual mais devagar. Neste estudo, 5 mil passos a mais por dia estiveram associados a uma perda cerca de 10% mais lenta (Lee e colaboradores, Ophthalmology, 2019).
Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou queda da pressão do olho logo depois de exercício aeróbico e de musculação. O efeito a longo prazo ainda não está provado (González-Devesa e colaboradores, International Ophthalmology, 2024). Ou seja: o exercício ajuda, mas não substitui o tratamento.
Musculação pode?
Pode. Para quem tem glaucoma, musculação é praticamente vida normal: você pode pegar peso sem problema.
O cuidado é com a respiração. Prender o ar durante o esforço, a chamada manobra de Valsalva, faz a pressão do olho subir mais do que soltar o ar enquanto faz força. Num estudo com estudantes, o agachamento elevou mais a pressão do que a rosca de bíceps, e a respiração normal deu os menores aumentos (Vera e colaboradores, European Journal of Sport Science, 2019). Na prática: solte o ar na hora do esforço.
Yoga e pilates: e a cabeça para baixo?
No pilates, os momentos com a cabeça para baixo são curtos, e eu não vejo restrição.
No yoga mais tradicional, com posturas invertidas mantidas por mais tempo, o cuidado faz sentido. Num estudo com pacientes com glaucoma, a postura do cachorro olhando para baixo levou a pressão do olho, em média, de 17 para 28 mmHg em um minuto. Ela voltou ao normal em até dois minutos depois de sentar (Jasien e colaboradores, PLoS One, 2015). Não é uma proibição absoluta, mas quem tem glaucoma avançado deve conversar com o médico antes de fazer essas posturas.
E quem toca instrumento de sopro?
Tocar trompete, saxofone ou outro instrumento de sopro também é uma forma de prender e empurrar o ar, e a pressão do olho sobe enquanto se toca. Num estudo holandês com músicos de orquestra, a pressão subiu em média 1,5 mmHg depois de 20 minutos tocando, um pouco mais nos profissionais (de Crom e colaboradores, Journal of Glaucoma, 2017).
Como hobby, eu não vejo contraindicação. Para o músico profissional, que toca por muitas horas todos os dias, o assunto merece conversa com o oftalmologista.
Natação e mar: o cuidado é com os óculos
Óculos de natação apertados aumentam a pressão do olho enquanto estão no rosto, e ela volta ao normal quando são tirados (Bilici e colaboradores, Scientific Reports, 2024). Numa hora de treino, isso não é bom.
A minha orientação é procurar um óculos um pouco maior, que se apoie nos ossos ao redor do olho, e não no olho. Vale para a piscina e para o mar de Maceió.
Corrida e caminhada têm restrição?
Para a maioria das pessoas com glaucoma, não. A exceção é a síndrome de dispersão pigmentar, um tipo específico em que o exercício intenso pode soltar pigmento dentro do olho e elevar a pressão por um tempo. Num estudo pequeno, com três pacientes, 30 minutos de corrida levaram a pressão de um deles a 45 mmHg (Mastropasqua e colaboradores, International Ophthalmology). Se o seu médico já disse que você tem dispersão pigmentar, converse com ele antes de treinar forte.
E depois de uma cirurgia de glaucoma?
Depende da cirurgia:
- Trabeculectomia. Quem fez essa cirurgia precisa entender que tem uma fístula, uma passagem criada para o líquido do olho sair, e ela pede cuidado. Eu costumo liberar um treino mais leve depois de cerca de um mês, mas cada caso é avaliado na consulta. Natação, mar e lago eu prefiro deixar para mais adiante.
- MIGS, as cirurgias minimamente invasivas para glaucoma. O retorno às atividades costuma ser em uns 15 dias, parecido com a cirurgia de catarata. Veja como funcionam os MIGS.
Quando procurar o médico
- Você começa a ver halos, aqueles anéis em volta das luzes, durante o exercício. Pode ser sinal de que a pressão subiu.
- Dor no olho com visão embaçada, durante ou depois do treino.
- Se você já fez trabeculectomia: olho muito vermelho, dor ou secreção. Pode ser infecção, mesmo anos depois da cirurgia.
- Qualquer perda súbita de visão: procure atendimento no mesmo dia.
Perguntas frequentes
O exercício substitui o colírio?
Não. O exercício ajuda, mas o tratamento continua sendo o que o seu oftalmologista indicou: colírio, laser SLT ou cirurgia.
Devo parar o colírio nos dias de treino?
Não. Mantenha o colírio nos horários de sempre, inclusive nos dias de exercício.
Quem tem glaucoma pode fazer academia?
Pode. Musculação, esteira e bicicleta estão liberadas para a maioria das pessoas. O cuidado é não prender a respiração no esforço.
Posso nadar no mar tendo glaucoma?
Pode, com óculos que não apertem o olho. Quem fez trabeculectomia deve esperar a liberação do médico antes de entrar no mar, na piscina ou em lago.
Para entender a doença desde o começo, leia glaucoma tem cura?.